27 de jan de 2004


Onipotência Governamental


Um dos grandes males do ensino superior brasileiro e em especial, aos cursos de Economia é o ataque ao livre mercado pelos professores. Sempre dizem que o “modelo” de livre mercado leva invariavelmente a concentração de renda e a pobreza das massas. O fato dessa história ser uma falácia facilmente comprovada pelo próprio Índice de Liberdade Econômica publicado anualmente no The Wall Street Journal, onde ao longo dos anos vem evidenciando que os países de maior liberdade econômica são os mais prósperos e os que apresentam as melhores condições de vida a seus cidadãos e que, ao mesmo tempo, onde há um forte intervencionismo estatal sobre o mercado (como no Brasil), os níveis de vida da população são inferiores aos países mais livres, não retrata os mestres.

Decorre que o mercado não é perfeito como insinuam alguns, entretanto, ele é capaz de reduzir os problemas de forma automática conforme a ação dos indivíduos, que sempre agem num sentido de sair de um estado menos satisfatório para um estado mais satisfatório. Essa é uma lei da ação humana; irrefutável e incontestável. Por outro lado, toda ação do Estado, o agente social de compulsão e coerção, sempre com o intuito de reduzir as imperfeições do mercado, resulta no agravo dos problemas a que se propôs solucionar.

O recente estatuto do idoso, elaborado pelo ilustre senador Paulo Paim do PT, por exemplo, é um exemplo cabal dessas políticas compulsórias. Por decreto governamental os planos de saúde para os idosos estão proibidos de serem reajustados os preços. É sintomático o fato de que o mercado não é um ser amorfo, mas sim dinâmico e o que resultou foi uma reação inevitável e natural da industria de Planos de Saúde que o próprio processo de mercado metaboliza quando o governo o obstrui. E o efeito foi o seguinte: como não podem aumentar o preço dos planos de saúde para as pessoas a cima de 60 anos, que pela própria natureza se torna mais custoso, alternativamente aumentaram os preços dos planos para os mais jovens. Na prática, conforme mostra reportagem da Folha de São Paulo de 27/01/04, isso resultou num aumento entre 30 até 90% dos preços cobrados aos mais jovens (até 59 anos) em relação ao período anterior à vigência do Estatuto.

Ora bolas, ninguém vive de prejuízos, e a economia é sustentada pelo cálculo econômico. Esse caráter elementar da economia não é somente os economistas que discernem, mas qualquer pai de família que sabe muito bem que não pode gastar mais do que a renda da família, caso contrário, perderá a confiança e o crédito, e se persistir irá à falência. Isso ocorre com qualquer agente econômico, inclusive com a indústria dos Planos de Saúde, ilustre Senador, pois ninguém está imune as leis do mercado, as leis da ação humana, por mais que os socialistas sonhem.

Uma das grandes lições que os pensadores liberais legaram à humanidade, especialmente os da Escola Austríaca de Economia foi que, toda interferência estatal na economia de mercado sempre agrava os problemas que os iluminados burocratas do governo pretendiam solucionar. No Brasil essa lição não foi aprendida por que sequer foi ensinada.

25 de jan de 2004

Anarco-capitalismo

Nunca havia falado aqui sobre o anarco-capitalismo. Realmente foi um lapso. Bom, ao menos tenho um link pra página do Hoppe ali em cima, para não ficar tão em débito...

A teoria anarco-capitalista é verdadeiramente subversiva. Se os esquerdistas brasileiros, desde aqueles que chamam Malan de "neoliberal", tomassem conhecimento das idéias, por exemplo, promulgadas por Rothbard ou Hoppe, iriam ficar orripilados em cair na realidade e denotar que Malan não tem nada de "neoliberal." Pelo contrário. Representa um perigo para o livre mercado, como ficou patente no decorrer de dois mandatos de FHC sob o jugo de Malan. A carga tributária duplicou e o mercado atrofiou!

Uma tese muito pertinente dos anarco capitalistas é a crítica de Hoppe sobre a democracia e a idéia de "Estado limitado" dos economistas liberais clássicos. Hoppe argumenta que a democracia falhou em pretender consolidar o livre mercado. Na verdade, a própria natureza da democracia representa um perigo para o livre mercado. É isso que notou Hoppe. Escreveu ele que a democracia ao dar margem para qualquer candidato governar e ao ser fundamentado num contrato social, isto é, uma imposição de condições do Estado sobre a sociedade, a democracia permite que o Estado seja governado por qualquer pessoa, inclusive alguem que esteja comprometido com interesses coorporativistas, bem como, com as idéias pró-estatais. No extremo, por socialistas. É mesmo, a democracia é um perigo e a História confirmou a tese. É só ver a que tamanho chegou o "Estado Mínimo" do liberais clássicos em todos os países democráticos.

No Brasil não existe nem um livro de cunho anarco-capitalista. Apenas no site O Indivíduo é possível ler sobre o tema. Marcello Tostes, colunista do site, tem dois excelente trabalhos divulgados lá. O Marcello tem o grande mérito de ser o pioneiro a apresentar ao público brasileiro a literatura anarcho e além disso, é preciso ser dito, fez esse trabalho com muita competência.

Os dois textos podem ser lidos clicando nos títulos: Liberalismo Clássico: uma crítica e Estado, Contrato Social, Segurança e Bens Públicos. Se trata de duas críticas demolidoras à idéia da Democracia e do Estado Mínimo tão caro aos liberais clássicos. O segundo ensaio, é uma crítica estritamente econômica a idéia dos elementos do título serem uma obrigatoriedade de serem ofertadas pelo Estado. Além disso, Tostes refuta de forma implacável a idéia do Contrato Social e, com isso, a própria existência do Estado. Solução: Abolir o Estado, privatizar tudo e deixar o mercado ser realmente guiado pela Mão Invisível.

24 de jan de 2004

Para quem quiser aprender as verdadeiras razões da grande crise de 1929, o artigo abaixo, escrito pelo meu amigo Rodrigo C. dos Santos é um dos textos mais brilhantes sobre o tema. Aqueles que ouviram ao longo da faculdade a falsa idéia baseada nos botocudos ensinamentos de Karl Marx e institucioalizada nos livros de Keynes e ainda mais, papagaiado repetidas vezes pelos professores que a crise de 1929 foi a crise do capitalismo laissez-faire leiam o artigo abaixo. Imunizado das asneiras marxistas e keynesianas, Rodrigo esclarece as verdadeiras causas da Grande Depressão com base nos fatos. Uma das glórias da Escola Austríaca de Economia para a ciência econômica é que ela foi a única escola a descobrir as verdadeiras razões da crise de 29 e que, por derradeiro, acabou demolindo o alicerce de mentiras que sustenta a teoria daqueles economistas.


As Verdadeiras Causas da Crise de 29


Rodrigo C. dos Santos

Quando falamos da Grande Depressão de 29, automaticamente culpamos o capitalismo liberal de mercado. As consequências de tal conclusão falaciosa foram extremamente maléficas para a humanidade. As políticas interventoras do Estado, defendidas por Keynes, passariam a ser vistas como necessidade vital para a economia. Os resultados foram insatisfatórios em todos os lugares, até chegar a era de Reagan e Thatcher, que decidiram refutar tais teorias, demonstrando a possibilidade de um caminho alternativo muito melhor. Não foi o mercado que falhou em 29, mas sim um Estado hiperativo.

Para demonstrar isso, precisamos de um certo conhecimento de ecomomia, assim como entendimento da escola austríaca. Como foge ao escopo deste texto um
aprofundamento muito grande das teorias, vamos passar pelos pontos maisimportantes apenas, mantendo uma certa superficialidade. Para quem tiver maior interesse nos detalhes, sugiro a leitura do excelente livro America's Great Depression, de Murray Rothbard.

Um dos pilares da teoria econômica austríaca é que inflação costuma ser causada pelo aumento da oferta de moeda e crédito. Desta forma, fica mais evidente compreender porque uma política expansionista de moeda não consegue apresentar bons resultados no médio prazo, já que o aumento das expectativas
inflacionárias levará a um aumento dos juros, não redução. Inúmeras evidências empíricas corroboram com isso, principalmente nos mercados emergentes, onde os governos sempre utilizaram políticas expansionistas de
moeda para estimular a ecomomia e acabaram com as maiores taxas de juros do mundo.

A inflação não é a única consequência indesejável de um aumento de oferta de moeda e crédito por parte do governo. Esta expansão costuma distorcer a estrutura de investimento e produção, causando excessivo investimento em projetos ruins na indústria de bens de capital. Somente a recessão pode corrigir este processo para que o mercado liquide tais malinvestimentos
realizados durante o boom. A existência de um banco central interventor impede esse ajuste natural, alimentando ainda mais novos investimentos indesejáveis, através da política monetária expansionista, adiando o problema mas também aumentando ele. O FED, nos EUA, só foi criado em 1913, e antes da crise de 29, todas as recessões tinham vida curta. E vale lembrar que a economia americana cresceu mais no século XIX, sem a existência de um banco central, do que no século passado.

Através da teoria geral austríaca, podemos entender melhor o porquê dos ciclos econômicos. Choques de oferta ou demanda, mudanças no padrão de comportamento, novas descobertas, tudo isso gera ajustes de preços relativos no mercado. Alguns setores aumentam suas vendas, enquanto outros perdem
mercado. Isso ocorre devido aos recursos escassos na economia, já que a poupança é finita. Entretanto, para falarmos de um aumento generalizado de preços, temos que ter mudanças na demanda ou oferta de moeda. Logo, mudanças de preços generalizados são determinados por mudanças de oferta ou demanda
por dinheiro. As mudanças na demanda vem por alterações nas preferências temporais do consumidor, enquanto as mudanças na oferta vem das políticas do
governo.

É por esta explicação, exageradamente resumida acima, que todo período de expansão precisa ser seguido por uma fase de recessão, ou ajuste. No caso de uma economia verdadeiramente livre de intervenção governamental, o laissez-faire, o crescimento econômico virá dos ganhos de produtividade, permitindo maior poupança e por consequência novos investimentos. Alguns exageros de expectativas dos empresários serão pontuais, específicas de seus setores, que terão um processo de ajuste de curta duração. Mas para termos um boom generalizado, com todos os empresários errando juntos as estimativas e produzindo em excesso, algum fator exógeno precisa existir. No caso, é o
governo, que com suas intervenções, altera o cenário macroeconômico e polui o quadro de estimativas das empresas, levando à exageros e investimentos
ruins advindos do crédito fácil e barato, que precisam ser seguidos por um duro processo de depressão para liquidar estes excessos. Quanto maior esta
intervenção, inviabilizando os ajustes naturais dentro de cada setor, maior será o efeito negativo depois.

Acho que é importante também mencionarmos o mito de que preços em queda possuem um efeito depressivo nos negócios. Isso não é necessariamente verdade. O que importa para os negócios não é o comportamento geral de preços, mas o diferencial entre preços de venda e custos dos insumos. Podemos ter um cenário de preços em queda com ganho de margens. Entretanto, como este dogma é tido como irrefutável, muitos governos entram em pânico com a possibilidade de queda de preços, e por isso atuam desesperadamente
injetando liquidez na economia, expandindo a oferta de moeda e crédito. Essa política inflacionária distorce os equilíbrios do mercado, permitindo sobrevida para investimentos ruins que deveriam ser liquidados. Os bancos centrais acabam inflacionando demais a economia para "salvar" um inevitável processo de ajuste natural, e as consequências são sempre desastrosas.

Para tentar "salvar" o país dessa recessão desejável para ajustar os excessos, o governo acaba criando novos problemas e potencializando a crise. Quando tenta manter os preços artificialmente altos durante esse processo, apenas faz com que mais estoques sejam criados, evitando o retorno à prosperidade. Quando os salários ficam mantidos no processo de deflação,
reduz ainda mais as margens das empresas e leva ao aumento do desemprego. Quando aumentam os gastos do governo, conseguem apenas estimular a economia
por um pequeno espaço de tempo, pois isso apenas reduz a poupança privada necessária para novos investimentos produtivos, retardando bastante a
recuperação sustentável. Os governos deveriam compreender que a política mais adequada para adotarem numa fase de depressão, é justamente não
interferir no processo de ajuste. Claro que isso não acontece na prática, pois cada governo foca apenas no seu curto mandato, e acaba interferindo para se livrar da implosão e passar o problema adiante. Mas o tempo cobra o preço das irresponsabilidades, e quem paga é o povo.

A maioria dos leigos em economia e curiosamente vários economistas, ignoram regras simples da natureza. Os recursos são escassos, e tudo exige uma troca. Para alguma indústria específica experimentar um crescimento no consumo, outras indústrias precisam sofrer uma queda no mesmo montante, ceteris paribus. Um aumento do consumo generalizado precisa ser financiado,
e só pode vir pela queda da poupança e investimento. Em resumo, as pessoas escolhem entre consumo presente e futuro, e podem aumentar o consumo
presente somente às custas do futuro, e vice-versa. O único jeito do investimento crescer junto com o consumo é através da expansão inflacionária de crédito. Logo, por ser monopólio estatal a emissão de moedas, um
crescimento em conjunto de consumo e investimento, que irá demandar um penoso ajuste no futuro, só pode ser atribuído ao governo, não ao capitalismo laissez-faire.

Acima, descrevemos a teoria austríaca de forma extremamente simplificada. Compreendendo melhor estes complexos temas, fica mais claro que somente um
governo seria capaz de criar as condições necessárias para uma depressão da magnitude da crise de 29, que jogou o desemprego americano para 25%. Nunca
que um mercado verdadeiramente livre de intervenções governamentais na macroeconomia iria extrapolar o crédito como aconteceu naquela época. Isso só foi possível pelas inúmeras intervenções do governo, que adotou uma política altamente inflacionária na década de 1920.

Durante todo o período do boom, a oferta de moeda aumentou em US$28 bilhões, um incremento de 62% num espaço de 8 anos. Isso epresenta uma média anual
de 7,7% de aumento, um grau respeitável de inflação. A reserva de ouro neste mesmo período cresceu apenas 15%. Além disso, o governo reduziu as reservas compulsórias dos bancos comerciais, incentivando uma migração de depósitos à vista para depósitos à prazo, que estimula o crédito. O Federal Reserve foi o principal responsável pelo aumento das reservas bancárias neste período, precipitando uma aceleração do processo inflacionário.

Outros mecanismos utilizados pelo governo foram o desconto de duplicatas e open market. O banco central induziu um aumento do crédito através da política de redesconto, que ao invés de ter uma taxa de juros punitiva, estimulava novos empréstimos, por ficar abaixo das taxas de mercado. Objetivando estender crédito para a agricultura, o FED foi extremamente
frouxo em sua política de crédito. Mas como o dinheiro não tem carimbo, esse excesso de liquidez se espalha por todos os setores, principalmente para bens de capital e mercado financeiro. O clima de prosperidade eterna foi agravado pelas declarações de importantes nomes da época, como o próprio presidente Coolidge.

Além do foco doméstico, a situação da Europa contribuiu bastante para que o governo americano adotasse políticas inflacionárias. A Alemanha, um dos principais credores dos EUA na época, estava com pouco capital, arruinada pela guerra. Os banqueiros americanos, atraídos pelas enormes comissões de empréstimos a governos estrangeiros, enviaram centenas de agentes para prospectar novos credores. A pressão em cima do governo, tanto desses banqueiros como dos próprios governos europeus, acabaram por estimular ainda
mais o crédito abundante e barato, inevitavelmente inflacionário. Isso foi ainda mais prejudicado pelo fato de 1924 ser um ano eleitoral, incentivando o governo a criar uma sensação de forte crescimento econômico, mesmo que sem sustentação sólida.

Em linhas gerais, deve ficar claro que a responsabilidade pelo período inflacionário que antecedeu e causou a crise de 29 recai sobre o governo, não o capitalismo de mercado. O governo dos Estados Unidos plantou as
sementes do que foi a Grande Depressão. Infelizmente, a interpretação foi diferente, provavelmente por falta de conhecimento tanto dos fatos como da teoria austríaca. O mundo entrou numa nova fase a qual a intervenção do
governo na economia passou a ser ainda mais desejada. Para um problema criado pelo governo, a solução proposta acabou sendo justamente mais governo.

Os erros do passado devem servir de lições para o presente e futuro. Era de se esperar que as pessoas aprendessem como acaba uma orgia de crédito fácil,
possibilitando um período de aparente expansão sustentável, mas que no final cobra um elevado preço pelos ajustes necessários. Hoje, vemos o governo
americano novamente tentando salvar uma recessão necessária para ajustar os mal investimentos de um boom causado por expansão de crédito inflacionário.
Seus métodos não mudaram muito. A liquidez tem sido abundante, a taxa de redesconto foi para níveis incrivelmente baixos, aboliram as reservas compulsórias, aumentaram os gastos do governo, tudo isso para estimular a economia. Vão apenas distorcer mais ainda o equilíbrio de mercado, dando sobrevida para projetos fadados ao insucesso. Vão sustentar no ar uma
sensação de crescimento, mas como os pilares não são sólidos, caucados em acúmulo de poupança, teremos provavelmente um final infeliz. Governo algum em lugar nenhum do mundo conseguiu alterar as leis da natureza com uma caneta e um papel. Quanto mais o governo tentar artificialmente estimular o crescimento econômico, mais dolorosa será a ressaca inevitável.

Rodrigo C. dos Santos é Economista e Analista de Mercado.



Alberto Oliva expõe no artigo abaixo a verdadeira causa da assustadora desigualdade no Brasil. Razões que a maioria dos professores de Economia, os estatólatras do Estado moderno, evitam comentar. Com disse certo economista: "O Estado é um roubo."


CONCENTRAÇÃO DE RENDA - ESTADO X MERCADO


por Alberto Oliva
em 13/01/2004



Em Das Kapital, Marx afirma que a ciência seria supérflua se a essência e a aparência coincidissem. Na realidade as coisas são como são. Mas as representações que delas fazemos podem tomar como real o que não passa de casca encobridora. Para o senso comum, a Terra é imóvel e plana. O grande desafio sempre é saber se o que nos aparece como realidade o é de facto. O mundo mudou profundamente desde o século XIX, desde quando Marx e vários outros estudiosos apontaram para as duras condições de vida e trabalho do proletariado então nascente. À época de Marx – em que tudo que era sólido se desmanchava mais lentamente no ar – o Estado ainda não tinha se tornado o Leviatã tributário. Ainda não embolsava, em termos proporcionais, a maior parte das riquezas produzidas. Desconsiderando o lado inevitavelmente bruto da disputa pelo poder, Marx chegou a imaginar, com grande inocência política, que uma vez consolidada a revolução comunista ocorreria a dissolução espontânea da ditadura do proletariado e o Estado perderia sua raison d’être e desapareceria...

Depois do rotundo fracasso do processo de coletivização dos meios de produção no século XX, hoje se assiste à universalização do socialismo tributário. Depois de ter sido instaurado nos países do Primeiro e Segundo Mundos, avança sobre as sociedades até recentemente rotuladas de subdesenvolvidas. O problema é que nos países pobres o socialismo tributário é perverso. O Estado, a pretexto de corrigir o mercado, se considera capaz de redistribuir, fazendo justiça, o que não produz. Com sua secular ineficiência paquidérmica, drena montante expressivo dos recursos escassos a duras penas gerados por empreendedores esfolados e trabalhadores empobrecidos.

Repete-se de forma monocórdia que o Brasil é uma sociedade terrivelmente injusta. E se atribui isso quase sempre ao capitalismo selvagem. Não está essa visão presa às aparências? O uso de advérbios de intensidade e de adjetivos condenatórios suscita reações emocionais que não contribuem para a compreensão do fenômeno da má distribuição de renda. Sociedades não têm vida própria. Não se reproduzem sem o concurso das ações individuais. Com atitudes e comportamentos, cada um de nós contribui para o estado geral do País. É claro que há também mecanismos impessoais, institucionalizados, que tornam os indivíduos – sozinhos – impotentes para reverter quadros sociais desfavoráveis a todos.

O que com freqüência se insinua no Brasil é que a concentração de renda resulta da perversidade das classes dominantes que aplicam com impiedade as leis da exploração capitalista. Omite-se o detalhe fundamental de que, dada a carga tributária extorsiva e os serviços básicos de péssima qualidade, é o Estado que fica com a parte do leão. Estudo sobre gastos sociais elaborado por técnicos do ministério da Fazenda, enquadra quem tem renda familiar de R$ 2.300,00 entre os 10% mais ricos da população. Isto é forte evidência de que a pobreza é generalizada. Em condições normais, não deveria ser classificada como de classe média nem mesmo a pessoa que tivesse sozinha esses rendimentos. Mesmo porque não proporcionam um padrão de vida mediano. A inexistência de uma autêntica classe média ajuda a entender por que subsiste um enorme fosso entre o topo e a base da pirâmide social.

Os pobres e miseráveis vivem à margem da economia formal. Os estratos médios da população estão sujeitos a uma extração tributária crescente que só faz rebaixar seu poder aquisitivo. A neoderrama está sangrando bolsos e deprimindo o consumo. E isso diminui a oferta de empregos e o padrão de vida dos mais pobres. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou recentemente o documento “Contas Regionais” no qual se encontra uma reveladora radiografia da delicada questão da distribuição de renda. A renda per capita média do brasileiro em 2001 foi de R$ 6.954,00. A região Sudeste - onde está concentrado não só o maior parque industrial do País mas também as mais importantes empresas de serviço - é a que apresenta maior renda per capita - R$ 9.316,00. O Nordeste da Vida Severina é a região mais pobre do país, apresentando renda média anual por pessoa de apenas R$ 3.255,00. O que causa surpresa no documento do IBGE é a informação de que a área do País onde a população tem a melhor renda é Brasília. Na capital, a renda anual per capita chega aos respeitáveis R$ 15.725,00. Isso significa que é quase cinco vezes maior que a renda do nordestino ou três vezes a renda do brasileiro. Como Brasília não é um centro econômico como São Paulo, nem se destaca como um novo pólo de desenvolvimento, desses dados se pode depreender que o Estado é generoso com seus burocratas. O problema é que isso ocorre em detrimento do dinamismo da economia e, por extensão, dos rendimentos dos trabalhadores que estão, em sua maioria, submetidos às férreas engrenagens do mercado que obrigam o setor privado, se não quiser sucumbir, a ser competitivo.

Será que está ocorrendo uma redistribuição de renda, via impostos escorchantes, dos brasileiros do norte/nordeste, sul/sudeste e centro-oeste para os servidores encastelados no Planalto Central? Tal questão está a demandar uma análise técnica. Enfrentá-la é fundamental porque a problemática da má distribuição de renda é prevalentemente enfocada pelos formadores de opinião como um subproduto do capitalismo tupiniquim. Quase ninguém coloca o Estado como um dos vilões, muito menos como o maior, do processo. Tudo seria perfeito, apregoam os neoestatistas, se não existisse a ganância empresarial, se a vida econômica não se pautasse pela busca do lucro. Não se discute que destino é dado à montanha de impostos que exaure a sociedade e tonifica a burocracia.

Por mais que no mundo se observe que as regiões de maior renda per capita tendem a se localizar nas capitais ou em seus arredores, no Brasil isso assumiu cores mais fortes em virtude da pobreza geral do povo e da asfixiante carga tributária. Enquanto não se parar para pensar na cota de responsabilidade do Estado pela má distribuição de renda, se tenderá a reduzir o problema à visão simplista de que tudo se resolve erigindo o Poder Público em árbitro que vai tirar dos ricos para dar aos pobres. Esquece-se que a voracidade tributária só faz piorar a distribuição de renda e diminuir o dinamismo do setor produtivo. Ora, se os trabalhadores e empresários entregam quase metade de tudo que é produzido aos governos, pouco sobra para consumirem e investirem. A sociedade precisa urgentemente discutir quanto está disposta a pagar pela máquina estatal. Não faz sentido ficar culpando o mercado que, a despeito de suas imperfeições, gera riquezas que em boa parte são apropriadas por governos que as malversam, as dilapidam ou as aplicam de modo inepto.

Alberto Oliva é filósofo


5 de jan de 2004

FALSÍSSIMO VERÍSSIMO


“Uma característica impressionante dos debates intelectuais brasileiros é que, de uma forma geral, nenhum dos debatedores parece ter qualquer interesse em se referir a coisas reais, ou a aceitar provas concretas e factuais. Sempre predomina a imaginação. Daí, quando apresentamos certos fatos, ouvirmos argumentos como "isso não é possível".

Álvaro Velloso de Carvalho em Os "debates" no Brasil (www.oindividuo.com)


Lembro-me dos tempos do colégio em que me divertia lendo Comédia da Vida Privada e O Analista de Bagé do Luiz Fernando Veríssimo. Hoje em dia, todavia, ler Veríssimo não é o mesmo prazer de antes, pelo contrário, é um verdadeiro desprazer. L. F. Veríssimo se tornou um perfeito agente gramsciano* e por isso seus textos não passam de um embuste. O fato é que ele tem se preocupado em escrever sobre temas em que ele não tem menor conhecimento, apenas paixão, o que acaba resultando seus escritos em verdadeiras asneiras. Veríssimo não entende nada de economia e tão pouco de política, apesar do espaço que já há algum tempo dá a esses assuntos em suas colunas de jornais. Hoje desejo comentar o que se passa na cabeça dos escritores da mídia, pegando como exemplo este autêntico charlatão, que não obstante, cultiva uma grande massa de admiradores.

A última, ou melhor, a mais recente, por que muitas outras virão, foi esta: "E para garantir que a reconstrução do país [Iraque] comece sem qualquer 'herança maldita' parecida com a deixada por vinte anos de liberalismo econômico na América Latina, (grifo meu) um enviado americano esteve percorrendo o mundo pedindo aos credores do Iraque que perdoem as suas dívidas. O que nos leva a pensar que, se em vez de nos submetermos, de Zélia a Palocci, ao receituário econômico de Washington, cujo custo em vidas humanas e desolação foi equivalente ao de anos de batalhas, tivéssemos estado em guerra aberta com os Estados Unidos, poderíamos hoje esperar um socorro parecido". (O Globo, 25/12/2003)

Vinte anos de liberalismo na América Latina? O que o sujeito entende por liberalismo, afinal? Definitivamente, L. F. Veríssimo é caso para camisa de força. Apesar de já ter lido alguns dos maiores autores liberais, em nenhum livro pude encontrar alguma referência ao método usado pela Zélia Cardoso para combater a inflação. Tampouco o método de trocar emissão de moeda por uma carga tributária escorchante para financiar o Estado, como fizeram FHC e Malan ao longo de oito anos de tucanato. Bem, mas isso certamente é liberalismo segundo as palavras do ilustríssimo mestre Luiz Fernando Veríssimo!

Por outro lado, é importante destacar que, a verdadeira “herança maldita” desde país passa ao largo de ser qualquer liberalismo que seja, mas sim, é devido ao histórico e indevido intervencionismo estatal; e estatismo econômico, nada tem a ver com qualquer corrente do liberalismo que se imagine, salvo de desvairados engajados na “causa”, como o social-caviar Luiz Fernando Veríssimo, o Falsíssimo.

*Quem desejar saber sobre o controle do aparelho ideológico-social pelos socialistas, doutrina de Antonio Gramsci, basta solicitar por e-mail.

26/12/2003