26 de mai de 2005

ECONOMIA E HUMANISMO
Por Ubiratan Iorio

(Jornal do Brasil, 23/05/05)

Se nos dermos ao trabalho de folhear uma edição de 1905 da famosa publicação da Universidade de Chicago - o Journal of Political Economy (JPE) -, veremos textos em inglês, enriquecidos com um ou outro gráfico e uma ou outra equação matemática, tratando de problemas tais como crescimento, inflação, formação de preços, desemprego e outros. Se tomarmos uma edição recente do mesmo JPE, poderemos levar um susto, pois veremos páginas e mais páginas com equações matemáticas bastante complicadas e uma ou outra anotação em inglês. Mas veremos que as questões tratadas são praticamente as mesmas que incomodavam os economistas há cem anos. Esta observação foi feita por Milton Friedman, ganhador do Nobel em 1976, em uma discussão travada há cerca de dez anos nos Estados Unidos, sobre o ensino de Economia nas universidades e, mais especificamente, sobre a forte queda observada na demanda pelos cursos de Economia (fenômeno, hoje, mundial).

O que teria acontecido, para que uma profissão que despertou tanto interesse até os anos 80 passasse a ser praticamente desprezada, a ponto de o número de mestrandos estrangeiros matriculados em universidades norte-americanas ser superior ao de mestrandos nascidos nos Estados Unidos? Creio que a resposta está em Hayek que, no discurso que proferiu ao ser laureado com o Nobel em 1974, forjou uma frase que deveria ter dado tratos às bolas de todos os economistas, mas que, infelizmente, passou desapercebida: “o economista que só sabe Economia não pode ser um bom economista”. Para Hayek, Mises, Kirzner e outros expoentes da chamada Escola Austríaca, a Economia é apenas uma das ciências de um campo maior, o da Praxeologia, que é o estudo integral da ação humana, ao lado das demais ciências humanas, especialmente as sociais, como a Política, a Sociologia, o Direito, a Psicologia, a História, a Antropologia, a Ética e outras. É dever de um economista que se pretenda vitorioso na profissão conhecer profundamente a Teoria Econômica, mas isto representa apenas uma condição necessária, porém não suficiente: um bom economista tem que ser também, além de um técnico, um bom humanista, pois deve estudar profundamente os demais campos do saber humano relacionados, no mundo real, com a Economia. Tem que ter noções firmes de Filosofia, que lhe abrem os horizontes do pensamento; de Antropologia, para que entenda o homem e sua evolução; de Psicologia, para que entenda o comportamento dos agentes; de Direito, para que possa saber a base legal em que pisa; de Sociologia, para que conheça os processos mediante os quais as sociedades evolvem, que são as ordens espontâneas, fenômenos não darwinianos; de Política, para que saiba, por exemplo, que as altas taxas de juros brasileiras são uma conseqüência de longo prazo de regimes fiscais cronicamente deficitários; e de História, não para prever o futuro, mas para evitar os erros do passado.

Ação humana é qualquer ato, em qualquer dessas ciências, praticado com o objetivo de passar-se de um estado menos satisfatório para um outro, mais satisfatório, sob o ponto de vista do indivíduo. Mises, em seu famoso livro Human Action, de 1948, construiu toda a Teoria Econômica sobre o conceito de ação. A Economia é neutra sob o prisma ético, nada tendo a dizer sobre se um ato ou ação é moralmente bom ou mau, distinção que cabe à Ética e à Moral: há atos econômicos, políticos, jurídicos, etc. moralmente neutros, como a compra de um saco de pipocas, moralmente maus, como comprar cocaína e moralmente bons, como comprar leite para crianças. Acredito que, quando os economistas compreenderem a profundidade dos trabalhos da Escola Austríaca e convencerem-se da importância de serem, além de excelentes técnicos, humanistas com elevada cultura geral, poderão contribuir melhor para o bem comum.

Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista- Cieep. Escreve às segundas-feiras para o JB. (lettere@ubirataniorio.org). Autor de "ECONOMIA E LIBERDADE: A ESCOLA AUSTRIACA E A ECONOMIA BRASILEIRA".

12 de mai de 2005

Keynes e a Lei de Say

Há uma crença generalizada entre os economistas de que John Maynard Keynes teria refutado a Lei de Say (ou lei dos mercados) em sua derradeira obra General Theory of Employment, Interest and Money de 1936, em que a partir daí, Keynes constrói a sua teoria macroeconômica. Neste artigo, o grande economista Ludwig von Mises demole esta crença. Desmistificando a crença, temos, por consequência, a derrocata de toda a base que sustenta a teoria macroeconômica keynesiana. Além disso, o economista evidencia que a nova macroeconomia keynesiana não era tão nova assim. Mises revela que ela nada mais é do que uma versão recauchutada e invernizada... das velhas teorias inflacionistas. Imperdível!

4 de mai de 2005

XVIII Fórum da Liberdade

Realizou-se na PUCRS dias 02 e 03 de Maio, o 18° Fórum da Liberdade, evento promovido anualmente pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE). O tema foi o futuro do trabalho e teve como palestrantes alguns nomes como Eduardo Gianneti da Fonseca, Jorge Gerdau Johannpeter, Walter Block e Olavo de Carvalho.

O Fórum da Liberdade já é consolidado como o maior espaço de debates sobre questões econômicas, políticas e sociais da América Latina.

Há uma unanimidade no ambiente do Fórum: o tamanho do Estado brasileiro é insuportável. Com uma carga tributária que expropria 40% da renda nacional, leis trabalhistas únicas no mundo - que remontam a era de Getúlio Vargas - e uma burocracia anacrônica e ineficiente, o Estado é o grande responsável pela falta de empregos no Brasil.

Além do alto nível dos painelistas que participam do Fórum, um outro fator positivo é que os liberais sempre convidam seus oponentes ideológicos para participar dos debates. Pontuarei um. O caso do empresário, ex-assessor de Lula e fundador do Fórum Social Mundial Oded Grajew ser um dos esquerdistas que usufruiu de distinto ambiente democrático, cumpre sublinhar.

Não sei se foi proposital ou acidental, o fato é que Oded Grajew participou do mesmo painel que o polêmico filósofo Olavo de Carvalho. Fez uma apresentação medonha. Utilizando-se de planilhas apresentou alguns dados sobre a situação social do Brasil e em seguida fez uma abordagem da rentabilidade das empresas que são do Instituto Ethos, do qual é presidente. Ao fim de sua exposição, antes do seu colega de mesa tomar a palavra, o sr. Oded correu.

Retirou-se da mesa e saiu de fininho enquanto Olavo destilava uma critica demolidora ao que Oded havia argumentado em instantes. Perdeu por não ouvir. Se bem que como o próprio Olavo falou antes de iniciar sua fala: “é uma pena que o sr. Oded não esteja presente fisicamente, se bem que seria inútil, pois percebi que o homem é impenetrável”. Risos na platéia.

Não só pelo contraponto o Fórum valeu a pena. É sempre um ambiente que muito se aprende. O contraponto de idéias que lá é oportunizado é mesmo um mérito notável, além das altas análises traçadas pelos diversos especialistas. O fato de podermos ouvir o americano Walter Block, P.h.D. em economia e alinhado com o anarco-capitalismo, foi uma oportunidade interessante, dado que no Brasil não existem liberais extremistas no ambiente especializado.

Com um destemível senso de humor, Walter Block fez uma exposição clara da importância da liberdade econômica como esteio para a geração de empregos e a prosperidade geral. Uma verdadeira heresia para a classe sindical que pouco entende de economia.

Polêmico, Block criticou o protecionismo americano, taxando de hipócrita o discurso de liberalização econômica que os políticos de seu país proferem para os outros países.

Em suma, ficou evidente que para o Brasil mudar o quadro dramático da falta de empregos e oportunidades se faz necessário a auto-exclusão governamental, em especial através da redução da carga tributária e da burocracia, bem como, da liberalização das leis trabalhistas.