24 de jan de 2004

Para quem quiser aprender as verdadeiras razões da grande crise de 1929, o artigo abaixo, escrito pelo meu amigo Rodrigo C. dos Santos é um dos textos mais brilhantes sobre o tema. Aqueles que ouviram ao longo da faculdade a falsa idéia baseada nos botocudos ensinamentos de Karl Marx e institucioalizada nos livros de Keynes e ainda mais, papagaiado repetidas vezes pelos professores que a crise de 1929 foi a crise do capitalismo laissez-faire leiam o artigo abaixo. Imunizado das asneiras marxistas e keynesianas, Rodrigo esclarece as verdadeiras causas da Grande Depressão com base nos fatos. Uma das glórias da Escola Austríaca de Economia para a ciência econômica é que ela foi a única escola a descobrir as verdadeiras razões da crise de 29 e que, por derradeiro, acabou demolindo o alicerce de mentiras que sustenta a teoria daqueles economistas.


As Verdadeiras Causas da Crise de 29


Rodrigo C. dos Santos

Quando falamos da Grande Depressão de 29, automaticamente culpamos o capitalismo liberal de mercado. As consequências de tal conclusão falaciosa foram extremamente maléficas para a humanidade. As políticas interventoras do Estado, defendidas por Keynes, passariam a ser vistas como necessidade vital para a economia. Os resultados foram insatisfatórios em todos os lugares, até chegar a era de Reagan e Thatcher, que decidiram refutar tais teorias, demonstrando a possibilidade de um caminho alternativo muito melhor. Não foi o mercado que falhou em 29, mas sim um Estado hiperativo.

Para demonstrar isso, precisamos de um certo conhecimento de ecomomia, assim como entendimento da escola austríaca. Como foge ao escopo deste texto um
aprofundamento muito grande das teorias, vamos passar pelos pontos maisimportantes apenas, mantendo uma certa superficialidade. Para quem tiver maior interesse nos detalhes, sugiro a leitura do excelente livro America's Great Depression, de Murray Rothbard.

Um dos pilares da teoria econômica austríaca é que inflação costuma ser causada pelo aumento da oferta de moeda e crédito. Desta forma, fica mais evidente compreender porque uma política expansionista de moeda não consegue apresentar bons resultados no médio prazo, já que o aumento das expectativas
inflacionárias levará a um aumento dos juros, não redução. Inúmeras evidências empíricas corroboram com isso, principalmente nos mercados emergentes, onde os governos sempre utilizaram políticas expansionistas de
moeda para estimular a ecomomia e acabaram com as maiores taxas de juros do mundo.

A inflação não é a única consequência indesejável de um aumento de oferta de moeda e crédito por parte do governo. Esta expansão costuma distorcer a estrutura de investimento e produção, causando excessivo investimento em projetos ruins na indústria de bens de capital. Somente a recessão pode corrigir este processo para que o mercado liquide tais malinvestimentos
realizados durante o boom. A existência de um banco central interventor impede esse ajuste natural, alimentando ainda mais novos investimentos indesejáveis, através da política monetária expansionista, adiando o problema mas também aumentando ele. O FED, nos EUA, só foi criado em 1913, e antes da crise de 29, todas as recessões tinham vida curta. E vale lembrar que a economia americana cresceu mais no século XIX, sem a existência de um banco central, do que no século passado.

Através da teoria geral austríaca, podemos entender melhor o porquê dos ciclos econômicos. Choques de oferta ou demanda, mudanças no padrão de comportamento, novas descobertas, tudo isso gera ajustes de preços relativos no mercado. Alguns setores aumentam suas vendas, enquanto outros perdem
mercado. Isso ocorre devido aos recursos escassos na economia, já que a poupança é finita. Entretanto, para falarmos de um aumento generalizado de preços, temos que ter mudanças na demanda ou oferta de moeda. Logo, mudanças de preços generalizados são determinados por mudanças de oferta ou demanda
por dinheiro. As mudanças na demanda vem por alterações nas preferências temporais do consumidor, enquanto as mudanças na oferta vem das políticas do
governo.

É por esta explicação, exageradamente resumida acima, que todo período de expansão precisa ser seguido por uma fase de recessão, ou ajuste. No caso de uma economia verdadeiramente livre de intervenção governamental, o laissez-faire, o crescimento econômico virá dos ganhos de produtividade, permitindo maior poupança e por consequência novos investimentos. Alguns exageros de expectativas dos empresários serão pontuais, específicas de seus setores, que terão um processo de ajuste de curta duração. Mas para termos um boom generalizado, com todos os empresários errando juntos as estimativas e produzindo em excesso, algum fator exógeno precisa existir. No caso, é o
governo, que com suas intervenções, altera o cenário macroeconômico e polui o quadro de estimativas das empresas, levando à exageros e investimentos
ruins advindos do crédito fácil e barato, que precisam ser seguidos por um duro processo de depressão para liquidar estes excessos. Quanto maior esta
intervenção, inviabilizando os ajustes naturais dentro de cada setor, maior será o efeito negativo depois.

Acho que é importante também mencionarmos o mito de que preços em queda possuem um efeito depressivo nos negócios. Isso não é necessariamente verdade. O que importa para os negócios não é o comportamento geral de preços, mas o diferencial entre preços de venda e custos dos insumos. Podemos ter um cenário de preços em queda com ganho de margens. Entretanto, como este dogma é tido como irrefutável, muitos governos entram em pânico com a possibilidade de queda de preços, e por isso atuam desesperadamente
injetando liquidez na economia, expandindo a oferta de moeda e crédito. Essa política inflacionária distorce os equilíbrios do mercado, permitindo sobrevida para investimentos ruins que deveriam ser liquidados. Os bancos centrais acabam inflacionando demais a economia para "salvar" um inevitável processo de ajuste natural, e as consequências são sempre desastrosas.

Para tentar "salvar" o país dessa recessão desejável para ajustar os excessos, o governo acaba criando novos problemas e potencializando a crise. Quando tenta manter os preços artificialmente altos durante esse processo, apenas faz com que mais estoques sejam criados, evitando o retorno à prosperidade. Quando os salários ficam mantidos no processo de deflação,
reduz ainda mais as margens das empresas e leva ao aumento do desemprego. Quando aumentam os gastos do governo, conseguem apenas estimular a economia
por um pequeno espaço de tempo, pois isso apenas reduz a poupança privada necessária para novos investimentos produtivos, retardando bastante a
recuperação sustentável. Os governos deveriam compreender que a política mais adequada para adotarem numa fase de depressão, é justamente não
interferir no processo de ajuste. Claro que isso não acontece na prática, pois cada governo foca apenas no seu curto mandato, e acaba interferindo para se livrar da implosão e passar o problema adiante. Mas o tempo cobra o preço das irresponsabilidades, e quem paga é o povo.

A maioria dos leigos em economia e curiosamente vários economistas, ignoram regras simples da natureza. Os recursos são escassos, e tudo exige uma troca. Para alguma indústria específica experimentar um crescimento no consumo, outras indústrias precisam sofrer uma queda no mesmo montante, ceteris paribus. Um aumento do consumo generalizado precisa ser financiado,
e só pode vir pela queda da poupança e investimento. Em resumo, as pessoas escolhem entre consumo presente e futuro, e podem aumentar o consumo
presente somente às custas do futuro, e vice-versa. O único jeito do investimento crescer junto com o consumo é através da expansão inflacionária de crédito. Logo, por ser monopólio estatal a emissão de moedas, um
crescimento em conjunto de consumo e investimento, que irá demandar um penoso ajuste no futuro, só pode ser atribuído ao governo, não ao capitalismo laissez-faire.

Acima, descrevemos a teoria austríaca de forma extremamente simplificada. Compreendendo melhor estes complexos temas, fica mais claro que somente um
governo seria capaz de criar as condições necessárias para uma depressão da magnitude da crise de 29, que jogou o desemprego americano para 25%. Nunca
que um mercado verdadeiramente livre de intervenções governamentais na macroeconomia iria extrapolar o crédito como aconteceu naquela época. Isso só foi possível pelas inúmeras intervenções do governo, que adotou uma política altamente inflacionária na década de 1920.

Durante todo o período do boom, a oferta de moeda aumentou em US$28 bilhões, um incremento de 62% num espaço de 8 anos. Isso epresenta uma média anual
de 7,7% de aumento, um grau respeitável de inflação. A reserva de ouro neste mesmo período cresceu apenas 15%. Além disso, o governo reduziu as reservas compulsórias dos bancos comerciais, incentivando uma migração de depósitos à vista para depósitos à prazo, que estimula o crédito. O Federal Reserve foi o principal responsável pelo aumento das reservas bancárias neste período, precipitando uma aceleração do processo inflacionário.

Outros mecanismos utilizados pelo governo foram o desconto de duplicatas e open market. O banco central induziu um aumento do crédito através da política de redesconto, que ao invés de ter uma taxa de juros punitiva, estimulava novos empréstimos, por ficar abaixo das taxas de mercado. Objetivando estender crédito para a agricultura, o FED foi extremamente
frouxo em sua política de crédito. Mas como o dinheiro não tem carimbo, esse excesso de liquidez se espalha por todos os setores, principalmente para bens de capital e mercado financeiro. O clima de prosperidade eterna foi agravado pelas declarações de importantes nomes da época, como o próprio presidente Coolidge.

Além do foco doméstico, a situação da Europa contribuiu bastante para que o governo americano adotasse políticas inflacionárias. A Alemanha, um dos principais credores dos EUA na época, estava com pouco capital, arruinada pela guerra. Os banqueiros americanos, atraídos pelas enormes comissões de empréstimos a governos estrangeiros, enviaram centenas de agentes para prospectar novos credores. A pressão em cima do governo, tanto desses banqueiros como dos próprios governos europeus, acabaram por estimular ainda
mais o crédito abundante e barato, inevitavelmente inflacionário. Isso foi ainda mais prejudicado pelo fato de 1924 ser um ano eleitoral, incentivando o governo a criar uma sensação de forte crescimento econômico, mesmo que sem sustentação sólida.

Em linhas gerais, deve ficar claro que a responsabilidade pelo período inflacionário que antecedeu e causou a crise de 29 recai sobre o governo, não o capitalismo de mercado. O governo dos Estados Unidos plantou as
sementes do que foi a Grande Depressão. Infelizmente, a interpretação foi diferente, provavelmente por falta de conhecimento tanto dos fatos como da teoria austríaca. O mundo entrou numa nova fase a qual a intervenção do
governo na economia passou a ser ainda mais desejada. Para um problema criado pelo governo, a solução proposta acabou sendo justamente mais governo.

Os erros do passado devem servir de lições para o presente e futuro. Era de se esperar que as pessoas aprendessem como acaba uma orgia de crédito fácil,
possibilitando um período de aparente expansão sustentável, mas que no final cobra um elevado preço pelos ajustes necessários. Hoje, vemos o governo
americano novamente tentando salvar uma recessão necessária para ajustar os mal investimentos de um boom causado por expansão de crédito inflacionário.
Seus métodos não mudaram muito. A liquidez tem sido abundante, a taxa de redesconto foi para níveis incrivelmente baixos, aboliram as reservas compulsórias, aumentaram os gastos do governo, tudo isso para estimular a economia. Vão apenas distorcer mais ainda o equilíbrio de mercado, dando sobrevida para projetos fadados ao insucesso. Vão sustentar no ar uma
sensação de crescimento, mas como os pilares não são sólidos, caucados em acúmulo de poupança, teremos provavelmente um final infeliz. Governo algum em lugar nenhum do mundo conseguiu alterar as leis da natureza com uma caneta e um papel. Quanto mais o governo tentar artificialmente estimular o crescimento econômico, mais dolorosa será a ressaca inevitável.

Rodrigo C. dos Santos é Economista e Analista de Mercado.

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