10 de jun de 2005

O Brasil Pós-Cardoso: uma crítica

Reporto-me ao texto “O Brasil Pós-Cardoso – a herança” do dr. Emir Sader, conhecido paladino do PT, que é distribuído aos alunos da matéria “Formação Econômica do Brasil” pela professora Vera Trenenphol (UNIJUÍ-RS). Os inúmeros erros e distorções do referido artigo ficam impossíveis de serem analisados criteriosamente nesta pequena crítica. Aqui tenho a pretensão de apenas pontuar alguns deles para evidenciar que o dr. Sader é um mestre na arte do embuste e, assim, se torna claro a sua intenção em falsear a verdade. Mas diante de tamanha aberração e, talvez, numa tentativa de inocentar o sujeito, sou levado a crer que ele nem a conhece.

Seu artigo começa dizendo que “o ciclo de governos neoliberais no Brasil – iniciado com Fernando Collor em 1990 e continuado com os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso – terminou derrotado e deixou um duro legado”. Muito bem. A despeito de concordarmos que as conseqüências de tal “ciclo” tenham sido negativas, a sentença inaugural do artigo está assentada num grotesco erro de interpretação. O problema aqui – que na verdade é a base de toda a argumentação do artigo – reside em alegar que o referido modelo é fundamentado no... “neoliberalismo”.

Ora, neoliberalismo foi um clichê criado pelas esquerdas (que dominam a mídia e os canais de educação no Brasil) para nomear as políticas inspiradas no velho ideário liberal do século XIX (livre mercado e pouca intervenção estatal na economia) que supostamente o Brasil adotou desde a década de 1990. Decorre que esta interpretação é completamente falsa, uma vez que não resta dúvida onde governos que confiscam a poupança da população (Collor), administram via medidas provisórias (FHC), financiam com dinheiro público sovietes no campo (FHC), entregam os canais de educação às esquerdas, aumentam a carga tributária a níveis insuportáveis e asfixiam a iniciativa privada com uma infernal burocracia (ainda FHC), estão longe de qualquer protótipo de economia liberal. Somente um farsante diria que um governo pautado por estas medidas é inspirado no liberalismo. A roupagem “neoliberal” criada pelas esquerdas não passa de um chavão para demonizar aquilo que desconhecem ou que fingem desconhecer.

Uma vez entendido que estes governos pouco ou nada de liberal tinham, revela-se o caráter espúrio ou mal intencionado do dr. Emir Sader.

Outro parágrafo que cumpre sublinhar é o que nosso intelectual afirma que o Brasil adotou os princípio do Consenso de Washington, diretrizes alinhadas com a idéia de diminuição do Estado na economia, como privatizações, abertura econômica e desregulamentação. Mais uma vez do dr. sofisma. Conforme analisam e provam os professores Giambiagi e Almeida em “Morte do Consenso de Washington? Os Rumores a esse Respeito Parecem Muito Exagerados”[1] (Out/2003), o Brasil NÃO adotou as diretrizes do Consenso de Washington e ainda concluíram que se assim o fizesse, nossa história (tão denunciada pelo intelectual Sader) seria bem outra. Neste documento, os autores provam, para além de qualquer dúvida, que foi A FALTA da aplicação do Consenso de Washington que impediu o saneamento das contas públicas do Estado e a estabilidade econômica com crescimento.

Seguimos. Imediatamente, com ar de ressentido, o nosso intelectual relata que FHC contou com o apoio da maioria do empresariado e da imprensa nacional para vencer as eleições, mas não revela que seu candidato, o Lula, teve o mesmo, se não maior apoio, nas eleições de 2002...

Além de sofismar, dr. Sader também se autocondradiz quando no início (e durante) o texto acusa FHC de “neoliberal” e em seguida o condena por administrar via “medidas provisórias”, ou seja, via golpes de caneta. Pergunto: o que é isto, se não um claro pragmatismo gerencial calcado na antidemocracia e, mais ainda, no antiliberalismo? Cumpre sublinhar, que até este trejeito “efeagacezista” de administrar... Lula copia. Mas o nosso intelectual prefere não entrar nestes assuntos...

Adiante, o paladino do PT lamenta que a sustentabilidade da economia só foi alcançada graças a elevada taxa de juros, o que comprometeu completamente o desempenho econômico e por conseqüência a geração de empregos do nosso país. Ora, a obrigação do governo em elevar as taxas de juros a níveis estratosféricos, foi exatamente por ele NÃO ter feito o necessário dever de casa, essencialmente, o corte gradativo nos gastos públicos. Exatamente uma das diretrizes da doutrina liberal, tão difamada pelo alucinado Emir Sader. A cada parágrafo não resta dúvidas de que o objetivo do nosso gênio não é o de esclarecer a verdade, mas falseá-la, para atingir os desejos de suas taras ideológicas (bastante claras para quem o conhece).

Vamos indo. Em seguida Sader disserta que “a abertura econômica levou a uma rápida elevação das importações e à perda do que era uma das conquistas da economia brasileira – a sua competitividade externa”. Muito bem, aqui há mais um erro digno de um analfabeto. Raciocinamos: se a abertura comercial elevou o nível de nossas importações, isso significa que os produtos estrangeiros eram mais baratos que os aqui produzidos, o que por conseqüência lógica, infere-se que, a abertura econômica revelou que “uma das conquistas da economia brasileira – a sua competitividade” só existe na cabeça do doutor, porque se nossas empresas fossem competitivas, mesmo com a abertura econômica, continuaríamos a comprar os produtos brasileiros e não os estrangeiros melhores e mais baratos. O aumento de nossas importações com a abertura, revelou ao contrário do que nosso intelectual acredita. Ela revelou que nossas empresas não eram competitivas.

Depois, dr. Sader manifesta-se indignado pela alta parcela das verbas públicas que passaram a ser gastas com o pagamento dos juros da dívida e, ao mesmo tempo, pela queda que isso representou nos gastos em educação. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que tudo isso só ocorreu devido ao modelo econômico brasileiro que marcou nossa história desde Getúlio Vargas, a saber, pesados gastos estatais e alta intervenção do Estado no domínio econômico, ou seja, o próprio anti-liberalismo em ação. A teoria econômica explica isso brilhantemente, afirmando que, a longo prazo, este modelo intervencionista, só tem um resultado final: a falência do Estado e o baixo rendimento econômico. Exatamente o mau que hoje vivemos. Se o Brasil adotasse, desde sempre, princípios liberais de baixa intervenção estatal sobre a economia, baixa regulamentação econômica etc etc,. com certeza nossa história seria diferente e não estaríamos hoje pagando a conta de medidas econômicas erradas adotadas por políticos que sempre se pautaram pelo repúdio ao liberalismo.

Vamos adiante, como diz um amigo, a burrice é um assunto fértil.

Sader logo diz que a debilitação da capacidade regulatória do Estado e a “flexibilização das leis laborais” por FHC, teve como conseqüência, o alto nível de informalidade dos trabalhadores brasileiro. Novamente nosso dr. incorre num equívoco por não entender do que está falando, ou então, num óbvio sinal de desrespeito com o leitor, sofisma conscientemente para ludibriá-lo.

Ao contrário do que afirma Sader, o alto nível de informalidade dos trabalhadores brasileiros não é em virtude da “flexibilização das leis laborais”, que, em verdade, nem chegou a acontecer no Brasil, mas sim, da asfixiante carga de impostos que incide sobre a contratação em carteira de trabalho. Os elevados impostos que incidem sobre a carteira de trabalho (a causa), tanto para o empregador quanto para o empregado, tem levado ambos a entrarem voluntariamente e informalmente em acordo salarial e de contratação fora da regime estatal de tributação (efeito). Está comprovado que uma das grandes causas do desemprego no Brasil é exatamente a escorchante tributação sobre a carteira assinada que torna proibitivo o emprego formal...

Por fim, vou ficar por aqui. Cheguei a metade do texto, omiti uma porção significativa de outras estultices, e não tenho mais paciência para analisar este verdadeiro atentado contra a inteligência humana. Isso é demais para minha cabeça. Impressionante a capacidade do nosso doutor em inserir, em tão poucas páginas, uma quantidade imensa de mentiras, trapaças e safadezas intelectuais. Na verdade, todos os parágrafos do texto são recheados destas substâncias. Só mesmo no Brasil uma pessoa consegue se tornar um renomado professor do meio acadêmico, dissertando sobre um misto que combina mentira, má intenção e canalhice. Mais alarmante que isso, é algum professor ter a capacidade de disseminar em sala de aula tal dejeto descritivo. Não há diferença moral alguma entre disseminar oficialmente AIDS, tuberculose e lepra, e distribuir textos do dr. Emir Sader. A única diferença é que as primeiras doem diretamente na carne e principalmente nos cofres públicos, enquanto a outra, dói apenas na consciência de quem se versou no assunto. Por isso a disseminação desta última é muito fácil e até imperceptível em nossas universidades. Ninguém se da por conta, sobretudo aqueles que a distribuem. É a doutrinação esquerdista, o embotamento da inteligência alheia, operando com toda a sua feiura em nossos “centros de saber”. Um horror!
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[1] O texto em PDF pode ser baixado aqui

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